A história

Pouco antes da década de 20, um veterano sul-africano da primeira guerra mundial decidiu criar uma corrida de proporções então consideradas épicas, somando 90km entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, para homenagear os seus camaradas que tombaram na luta. Seu raciocínio era simples: se soldados com pouco treinamento conseguiram atravessar as savanas africanas por centenas de quilômetros, carregando quilos de mantimentos e armas, então qualquer pessoa minimamente preparada também conseguiria. 

Bom… Vic Clapham precisou de algum tempo mas, em 1921, conseguiu autorização para largar com um punhado de 34 amigos loucos em uma das homenagens mais exaustivas já feitas a qualquer combatente, que ficou conhecida como a ultramaratona de Comrades. 

Curiosamente, ano após ano novos adeptos se inscreviam e, embora ainda pequena, a prova acabou se consolidando no então mínimo calendário esportivo da região.

Anos se passaram. 

Em plena era do Apartheid, a África do Sul vivia uma espécie de estrangulamento na importação de entretenimento por conta de embargos internacionais. Filmes, séries e muitos outros “produtos” eram proibidos de serem vendidos às redes de TV locais por potências mundiais que pressionavam contra a segregação racial. 

Sem opção, o principal canal africano acabava caçando assuntos dentro das fronteiras nacionais – e eventualmente se esbarrou na Comrades. Quer coisa melhor quando não se tem o que transmitir do que um evento que dure 12 horas seguidas? 

Assim, a Comrades passou a ter cobertura televisiva ao vivo – do início ao fim. E, como a demanda imensa não tinha outra opção de oferta, milhões de sul-africanos foram lentamente se habituando a assistir a cada segundo do evento. 

Mais alguns anos se passaram. 

De símbolo de camaradagem, a prova cresceu enormemente graças, ironicamente, à existência do Apartheid que incentivara a cobertura em TV nacional. Seu porte ficou tamanho que logo ela se tornou símbolo máximo do orgulho sul-africano – a tal ponto que o regime racista decidiu usar uma edição inteira para comemorar o seu vigésimo aniversário, em 1981. 

Nova inversão de circunstâncias: o que era orgulho virou símbolo da luta contra o Apartheid e até os corredores de elite brancos decidiram fazer o percurso usando uma tarja negra em protesto contra a organização. 

Os tempos mudaram de novo. 

O Apartheid caiu. 

Os embargos sumiram. 

Um mar de produtos de entretenimento cruzou as savanas inundando o público de opções. 

Muitos duvidaram que o evento conseguisse manter o seu appeal em um novo mundo, em um contexto em que a África do Sul não estava mais excluída do restante do planeta. Mas ele conseguiu. 

Depois de tantos anos, a Comrades estava já embedada no DNA sul-africano, traduzindo-se em um símbolo máximo de vitória para as tantas lutas que ela acabou representando ao longo de sua história.  

No próximo dia 31 de maio será dada a largada da nonagésima edição da prova, com quase 20 mil corredores que enfrentarão os seus 90km em busca da glória pessoal. 

Eu largarei pela segunda vez nessa prova – escrevo este post, inclusive, da cidade de Durban, onde acabei de pousar. No ano passado, o que mais me chamou a atenção foi a camaradagem que realmente inunda toda a região: basta dizer que você correrá a Comrades e até café de graça te oferecem, sempre com um sorriso orgulhoso estampado no rosto de cada sul-africano. 

Durante as 10 horas e 54 minutos que levei, décadas de tradição se traduziram em palavras de força e torcida tanto de outros corredores quanto dos incontáveis espectadores que, incrivelmente, lotam todos os 90km, dos dois lados da estrada, para testemunhar o que eles consideram como um dos mais importantes momentos históricos de sua pátria. 

Uma coisa não se discute: correr Comrades muda a vida de qualquer um: aprende-se que resultados só vem com treinos persistentes, aprende-se a lidar com dor e sofrimento, a deixar a mente forçar o corpo quando este pede clemência, a entrar em um mundo mais zen do que se possa imaginar.

Mas o mero fato de testemunhar de perto a existência de um evento assim já dá uma perspectiva incrível. Afinal, como pode um evento ter nascido de uma homenagem nobre a soldados caídos em uma guerra ter se transformado em símbolo de uma nação, depois em símbolo de um regime perverso como o Apartheid, se nutrindo dos seus efeitos até atingir a maioridade, depois ter virado a cara da luta pela união racial e, finalmente, ter se eternizado como símbolo máximo de orgulho para todo um povo? 

Símbolos são sempre curiosos: como camaleões, eles mudam ao sabor das circunstâncias, se alimentando de qualquer emoção que estiver ao alcance para crescer e se consolidar quase que com vida própria.

São mais que curiosos: são de um poder simplesmente inacreditável.

Ricardo Almeida

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